Sexta-feira, 27 de Fevereiro de 2009

Era uma vez...

Trânsito

 

 

Era uma vez um concelho no meio do Alentejo, pequenino e pouco arranjadinho, tinha umas estradas assim já velhinhas e as casinhas mal pintadinhas. E as ruas… coisa querida, parecem mantas de retalhos de tanto cuidado e amor. E quem não vê o esmero é cego e quem não agradece ao Sr. Presidente (senhor de posses e de amigos importantes) não tem coração. Que bonito é ver o povo nos passeios de domingo na capital do concelho, que bonito é achar um passeio em condições e quando finalmente o vislumbramos, que bonito é não tropeçar nas pedras soltas. Era uma vez um camião que queria passar para o lado de lá, e não é que com uma ajudinha conseguiu passar e não atropelou ninguém.
Que bom é não ser atropelado na nossa querida estrada nacional, que bom é não cair pelas bermas das ruas caiadas a preto. Que bonita a praça de Viana, que bonita a praça de Aguiar, e a iluminação nas Alcáçovas. Tão lindo este concelho assim pequenininho, rusticozinho, até parece que foi feito á mão, com pequenas agulhas em grandes mãos. As mãos do senhor presidente, o nosso presidente.
Nesta terra do Alentejo, os meninos já não eram muitos, mas lá iam todos felizes em carreira para a sua velha escolinha. Que bonita escolinha com tantos degrauzinhos pena é que o zezinho não os consiga subir sozinho. Mas se o meterem lá dentro tão feliz vai ficar o petiz com o ventinho fresco do novo ar “condicionadozinho”. Dizem que foi o senhor presidente que deu. E o povo agradece ao senhor, porque o senhor é que sabe e se não fosse ele nem luz havia na escola.
E os pais que cedo ergueram, depressa desapareceram á procura do pãozinho no concelho vizinho, para á tardinha voltarem pela estrada velhinha.
Só me apetece agradecer ao senhor presidente o tanto que tem feito por nós e agora que as eleições estão á porta até parece ter ficado com mais vontade de fazer o bem pelo povo que tanto o adora. Obrigado pela piscina de Aguiar, o povo não cabe em si, e quando ligam o motor daquilo até bolhas faz. Já me estou a ver no verão ali todo esparramado ao sol.
Senhor presidente se lhe vierem com conversas da zona oficinal ou do pavilhão desportivo coberto ou essas tretas da segurança no interior da vila não faça caso, os fascistas a gente mete-os na praça de toiros e tratamos deles. “Porra” o Alentejo é rústico, não se meta a arranjar as coisas que tanto tempo levaram para ficarem neste estado, não faça caso dessa gente, quem não gosta não veja. Olhe, faça como fez no edifício da Câmara Municipal, arranje tudo mas deixe uns cabos pendurados, eu sei que você nunca nos deixa mal, quem quiser que os enterre.
Era uma vez um concelho no meio do Alentejo, pequenino e pouco arranjadinho…

 

publicado por peixebanana às 02:05
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De Anónimo a 28 de Fevereiro de 2009 às 00:58
Peixebanana, parabéns pelo belo texto que escreveu.

Retratou de forma caustica aquilo que se passa no nosso concelho e por isso ficaram furiosos.
Foi mesmo meter o dedo na ferida.
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Alucinações

 
Um polícia reformado imagina que uma criança inglesa morreu num trágico acidente e que o corpo foi congelado ou conservado no frio pelos pais e amigos.

Um político socialista imaginou que era possível combater a corrupção neste sítio cada vez mais mal frequentado, apresentou um pacote de medidas e ficou muito desiludido quando o seu partido o atirou para o lixo e aprovou um conjunto de diplomas que vai deixar tudo como antes, o quartel-general em Abrantes. O mesmo político imagina, agora, que a corrupção está mais elevada do que nunca e fica triste porque ninguém lhe liga nenhuma.

A líder do maior partido da Oposição imagina que é possível chegar ao poder sem andar por aí em festas folclóricas, em espectáculos medíocres e chega ao ponto de dizer que vai tentar falar verdade sobre os problemas do sítio e que não se pronuncia sobre assuntos que não conhece.

Um ministro deste Governo socialista imagina-se como director comercial de uma multinacional e salta de contente sempre que assina um contrato com uma empresa qualquer. O mesmo governante imagina um dia que a crise económica, financeira e social já passou e no outro imagina que o que aí vem vai ser bem pior.

Um primeiro-ministro que os indígenas elegeram em 2005 com maioria absoluta imagina que vive num sítio maravilhoso, com uma economia pujante, com um nível de vida extraordinário, com cidadãos altamente qualificados e até imagina que Angola tem um governo fabuloso, digno dos maiores elogios, que a Líbia é dirigida por um ser normal, democrático, que até escreveu em tempos um livro que só por acaso não ganhou o Nobel da Literatura e que a Venezuela tem um presidente civilizado, com os alqueires todos no sítio e que merece ser recebido várias vezes em poucos meses com gestos de grande carinho e amizade.

Um Presidente da República imagina que os seus silêncios são mais importantes do que as suas palavras e imagina que quando discursa alguém o ouve verdadeiramente com atenção. Imagina que quando fala na necessidade de se combater a corrupção ou atacar a sério os problemas da Justiça e da Educação alguém o leva verdadeiramente a sério e vai a correr preparar mais uns diplomas para indígena ver.

A alucinação, como se vê, veio para ficar. Está a tornar-se numa pandemia. Em vez de dinheiros da Europa, o sítio precisa urgentemente de uma enorme equipa de psiquiatras que o cure da doença enquanto há tempo e esperança de cura.

António Ribeiro Ferreira
[in Correio da Manhã, 28.07.2008]

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