Terça-feira, 11 de Novembro de 2008

Com o copo meio cheio

 

 

 

Estamos a atravessar tempos difíceis, nos últimos três anos, quase todos os portugueses sentiram de alguma forma o aperto de cinto. O congelamento de salários na função pública, o aumento do desemprego, a falta de trabalho e a dificuldade em cobrar têm vindo gradualmente a aumentar. Ao mesmo tempo que ouve aumento da carga fiscal, aumento brutal nos combustíveis, em alguns bens de consumo básico e as taxas de juro a tocarem no “red line”. Mesmo antes de sabermos que estávamos metidos no meio de uma crise económica com proporções globais já estávamos literalmente enterrados até ao pescoço.
O optimismo deu lugar ao pessimismo, e em muitos casos o sonho deu lugar ao pesadelo. O principal valor motor de uma economia saudável, o optimismo, já caiu por terra há muito tempo e esta crise dos mercados vem destruir a esperança dos resistentes.
Como a maior parte dos portugueses esta crise ou lá o que lhe quiserem chamar, tem-me preocupado muito. Estou na situação mais precária de sempre, como uma grande maioria, não me lembro de contar tostões e de fazer contas de esticar. No entanto não acredito no pessimismo, não me conformo com este estado de coisas e continuo a acreditar todos os dias, e os dias vão passando e quando parece que não vai chegar, acaba por dar. Foi no dia que resolvi não baixar os braços que tudo voltou a fazer sentido. O optimismo não deve ser confundido com ilusão. Eu não estou iludido, sinto na pele os tempos que estamos a atravessar, mas tento ver nos pormenores da vida antes de mais os aspectos positivos.
Todos os problemas têm um lado positivo.
Bem sei que não é fácil para algumas pessoas, mas haverá alternativa. Qual é o homem que consegue produzir algo de uma forma pessimista.
Tu és aquilo que pensas, tal como nós somos aquilo que pensamos. Haverá crise que resista a um pensamento colectivo que não acredita na fatalidade?

 

publicado por peixebanana às 15:32
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É curioso como não sei dizer quem sou. Quer dizer, sei-o bem, mas não posso dizer. Sobretudo tenho medo de dizer porque no momento em que tento falar não só não exprimo o que sinto como o que sinto se transforma lentamente no que eu digo.

 

Clarice Lispector

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Alucinações

 
Um polícia reformado imagina que uma criança inglesa morreu num trágico acidente e que o corpo foi congelado ou conservado no frio pelos pais e amigos.

Um político socialista imaginou que era possível combater a corrupção neste sítio cada vez mais mal frequentado, apresentou um pacote de medidas e ficou muito desiludido quando o seu partido o atirou para o lixo e aprovou um conjunto de diplomas que vai deixar tudo como antes, o quartel-general em Abrantes. O mesmo político imagina, agora, que a corrupção está mais elevada do que nunca e fica triste porque ninguém lhe liga nenhuma.

A líder do maior partido da Oposição imagina que é possível chegar ao poder sem andar por aí em festas folclóricas, em espectáculos medíocres e chega ao ponto de dizer que vai tentar falar verdade sobre os problemas do sítio e que não se pronuncia sobre assuntos que não conhece.

Um ministro deste Governo socialista imagina-se como director comercial de uma multinacional e salta de contente sempre que assina um contrato com uma empresa qualquer. O mesmo governante imagina um dia que a crise económica, financeira e social já passou e no outro imagina que o que aí vem vai ser bem pior.

Um primeiro-ministro que os indígenas elegeram em 2005 com maioria absoluta imagina que vive num sítio maravilhoso, com uma economia pujante, com um nível de vida extraordinário, com cidadãos altamente qualificados e até imagina que Angola tem um governo fabuloso, digno dos maiores elogios, que a Líbia é dirigida por um ser normal, democrático, que até escreveu em tempos um livro que só por acaso não ganhou o Nobel da Literatura e que a Venezuela tem um presidente civilizado, com os alqueires todos no sítio e que merece ser recebido várias vezes em poucos meses com gestos de grande carinho e amizade.

Um Presidente da República imagina que os seus silêncios são mais importantes do que as suas palavras e imagina que quando discursa alguém o ouve verdadeiramente com atenção. Imagina que quando fala na necessidade de se combater a corrupção ou atacar a sério os problemas da Justiça e da Educação alguém o leva verdadeiramente a sério e vai a correr preparar mais uns diplomas para indígena ver.

A alucinação, como se vê, veio para ficar. Está a tornar-se numa pandemia. Em vez de dinheiros da Europa, o sítio precisa urgentemente de uma enorme equipa de psiquiatras que o cure da doença enquanto há tempo e esperança de cura.

António Ribeiro Ferreira
[in Correio da Manhã, 28.07.2008]

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